Me alimento com comprimidos, todos os dias.
Logo pela manhã, a receita médica - dada por um cidadão de branco e um diploma de oito anos que vale menos que um Whisky oito anos paraguaio (que na verdade, tem dois anos em alguma refinaria do mundo), me receita com um sorriso no rosto; que me faz até acreditar em felicidade assim como Roberto Carlos finge que tem uma perna e mesmo assim todas as garotas-velhas o adoram.
Quando sinto falta de amor, tomo logo outro comprimido (que não é tão comprimido assim e sempre entala na goela - mas o que entala de verdade é o amor em comprimido). Mas então passo a amar à tudo e todos. E esses comprimidos, me fazem um bem danado, sô. Eu até canto Lulu Santos.
Pra minha sessão tortura televisionária pelas madrugadas, roubo diazepamínicos dos mais variados tipos (roubo nas farmácias, e sempre uso a minha fantasia de nariz-batata, bigode e óculos; fica aí a dica do disfarce perfeito). Tomo todos os que me deixam alegre, e com aquela sensação de que eu tô num porre desgraçado, mas que custou muito mais barato e é algo íntimo e menos triste que beber sozinho no bar.
O duro danado é quando a balança me acusa com o ponteiro da inquisição que estou gordo, e aí saio me enfiando todas as tralhas que vão fazer eu parar de engolir alguma coisa (sorte que não inventaram supositórios disso, ainda). E me concentrando todas as vezes que tenho fome, em um enorme bolo de Diempax com suco de Triptanol. E depois de uma ou duas goladas, todos os convidados são bem vindos. E de dentro do bolo, ao invés de sair a Marylin Monroe cantando "Happy Birthday", sai o Walrus. Aquele conhecido coelho megalomaníaco daquela banda, Os Fuscas.
Quando quero sentir pena de alguém, logo boto meu óculos 0.75 de miopia e como cenoura. Afinal, isso melhora a visão.
Mas o problema de tudo é quando tomo remédios pra comer, misturo com o remédio pra dormir, e de quebra ainda tomo o remédio que me deixa alegre. Acabo ficando sonâmbulo e roendo as unhas do meu próprio pé.
Sonho com o dia de frangos encapsulados, de restaurantes self-service que ao invés de arroz e todas essas coisas sem graça, me servirão comprimidos sem calorias e com muita diversão.
Sonho com o dia do dó em comprimido, e que se você morde ele solta um dó bemol ainda por cima.
Com a vingança em cápsulas oleosas.
E nesse futuro e maravilhoso dia, cagaremos todos como coelhos: em bolinhas. E aí sim eu me sentirei limpo. Profundamente limpo.
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